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Quando nós não somos convocados a pensar – Eduardo de Jesus

Estréiamos com esse texto uma nova idéia para o blog do Hoy. Convidamos textos a habitar esse espaço, sejam eles criados para o blog ou escritos em outro períodico.
Esse texto do professor Eduardo de Jesus foi escrito para o jornal Letras, periodico cultural do Café com Letras. Número 33. Junho de 2009

Quando nós não somos convocados a pensar

Eduardo de Jesus

No  cenário  atual,  dominado  pelo  capitalismo  cognitivo,  as  produções  culturais, altamente  valorizadas,  são  apropriadas  e funcionam  como mola  propulsora  de  processos  de subjetivação, mas  que  não  provocam  deslocamentos.  Tudo  assume  uma forma  apaziguada  e morna,  na  qual mais vale  a “satisfação  do  cliente”  do  que  especificamente alguma forma, um pouco mais ousada, que reconfigure ou desloque as subjetividades. Tudo parece deslizar no mesmo lugar, embalado pela mesmice e pelo gosto médio do consumidor, do  formulário da  lei de  incentivo  (que,  inevitavelmente,  acaba por formatar idéias e propostas adequando-as a um suposto patrocinador e público) e da mesmice cultural que, de alguma forma, impera nos domínios da cultura brasileira. Há pouco risco, assim como pouco investimento em ousadia e experimentação.

Se  tomarmos  as  produtivas  tensões  entre global  e  local,  especialmente  se  entendermos  que  essa  relação,  na  verdade,  é  um processo e não uma  localização,  talvez seja possível  assumir  que  as  formas  culturais contemporâneas  se  estabelecem  num  liame  híbrido,  numa  mistura  de  referências que  dota  o  local  de  uma  densidade.  Para estabelecer  diálogos  mais  intensos  com essa tensão, tipicamente contemporânea, é importante que a produção cultural explore aquilo que pode, de alguma forma, provocar deslocamentos, atitudes críticas e reflexivas. Instigar o  sujeito  que  experimenta  a  produção  cultural a procurar outras  formas de singularidade,  para  além  daquelas  padronizadas  que  são  viabilizadas  e  dadas  a  ver pelos  jogos  do mercado,  especialmente  no domínio da mídia.

Em diversos projetos culturais que circulam pelo nosso  país  podemos  perceber  uma  ligação  extremamente  forte  com  essa  visão muito  apaziguante  que,  dificilmente,  explicita,  e  nos  coloca  a  pensar,  na  gama  de conflitos que experimentamos na vida cotidiana. Freqüentemente, o que ocupa o sistema midiático e a visibilidade é da ordem do “espetáculo”, tomando o termo de forma estrita como em Guy Debord.   Nesse contexto vale tudo, desde que seja grandiloqüente e consiga mobilizar um grande número de cidadãos comuns ou “formadores de opinião”. Chama a atenção nessa lógica, por exemplo, os  investimentos  em  publicidade massiva. Comumente vemos  isso.  Uma empresa  ou um  conglomerado  financeiro  alardearem um  “grande  espetáculo”  associando  isso  a uma  suposta  “responsabilidade  e  compromisso” com a cultura brasileira.

Esses anúncios ocupam os intervalos comerciais  das  grandes  emissoras  de  televisão, assim  como  rádios,  jornais  e  revistas,  de forma  intensa. Ou  seja,  um  fabuloso  (para combinar  com  o “espetáculo”)  investimento em mídia em todo o Brasil.  Infelizmente não  temos acesso aos números, mas quase certamente o investimento publicitário nesses comerciais – que, às vezes, contam com a atuação de grandes estrelas da  televisão, cinema  ou  teatro,  mostram  as  diversas produções patrocinadas em fashs rápidos – poderia  ser  também  revertido  em  projetos  de  menor  escala,  mais  de  fomento  e  até mesmo de menos visibilidade. Poderiam ser usadas outras estratégias midiáticas, menos agressivas e onerosas, para associar a  instituição à produção cultural.  Mas, nessa visão, o espetáculo  tem  suas vantagens: o  tapete vermelho, a presença em massa de “celebridades” – de ex-participante de reality show ao  suposto  novo  caso  amoroso  do  político corrupto – e com  isso a divulgação de uma marca e sua “responsabilidade com a cultura brasileira”.

Guardadas as devidas proporções, é  impossível não lembrar de Tim Maia. Nos anos 70, o  cantor  teve uma grande briga  (nas mesmas proporções da voz e do seu biótipo) com um gerente de marketing de uma gravadora, que, ao  revelar o valor do plano de  lançamento do novo disco que acabava de ser apresentado, foi surpreendido por Tim Maia, que, muito nervoso, esbravejava ser possível fazer vários discos com aquele valor. Ou seja, essa visão não é nova, no entanto se repete a exaustão.

Nesse ritmo vale aquilo que trouxer a maior mobilização e visibilidade, uma questão de números e  de  estatística.  Nesse  contexto, podem ganhar espaço desde comemorações e  efemérides  (uma  “cultura  da  memória” como  diria  Andreas  Huyssen)  –  que  pautam da escola de samba à exposição de arte contemporânea do grande nome do circuito internacional  –  até  o  frisson  em  torno  do franchise  cultural  das megacorporações  de entretenimento travestidas em uma suposta inovação, mas que, na verdade, estão absolutamente  adequadas  ao  merchandising selvagem  dos  grandes  grupos  financeiros. Sabemos que prodígios técnicos e virtuoses, por  si  só, não bastam. Precisa-se de muito mais  (ou  quem  sabe,  muito  menos)  para conseguir  mobilizar  os  afetos  do  público fazendo-o  reposicionar-se  criticamente diante  da  vida.  Se  a  busca  por  parâmetros institucionais  domesticados,  que  acabam por  provocar  uma  estandartização  na  produção  cultural,  coloca  tudo  em  uma  vala comum, isso talvez comprove o quão vazias se  tornaram as políticas  culturais, em  relação  ao  sofisticado  domínio  do  capitalismo cognitivo, agora entregues ao lugar comum, ao gosto médio, à celebração extremamente onerosa de grandes nomes da arte e cultura que  já  não  conseguem  entrar  em  sintonia com as questões contemporâneas.

Não se trata de buscar sempre o mais novo, papel aliás mais adequado para a venda de produtos de consumo direto, mas de conseguir dar uma densidade  em  torno das  formas que a produção cultural pode assumir. É possível buscar vínculos com a memória e com o passado, mas de forma mais criativa e aberta, sem as pressões típicas que estriam e condicionam o que deve ou não ser  lembrado,  como  se  fosse  uma  grande  agenda operando  de  forma  retroativa  e  pautando nossas memórias coletivas numa espécie de globalização da memória.

Nessa primeira década do século XXI a produção  cultural  traz  muitos  desafos  e  enfrentamentos,  especialmente  aqueles  que colocam os processos de subjetivação como ponto central de nossos olhares e atenções. Convivendo com um circuito midiático altamente competitivo, alargado e infltrado na vida  social  (especialmente pelo avanço das mídias digitais e da  comunicação móvel) a produção cultural poderia oferecer uma  resistência  crítica  nesses  embates  e  oferecer oportunidades  ao  sujeito  de  ampliar  seus horizontes  de  expectativa,  para  além  de visões  apaziguadas  e  aprisionadas  por  noções  equivocadas  de memória,  identidade e território.

Eduardo de Jesus é professor da Faculdade de Comunicação e Artes da PUC Minas.

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