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Sobre passado, presente e futuro…

Continuando nossa série de textos que foram convidados para habitar esse blog, a capital recebeu vários presentes de Natal esse ano.
Segue o questionamento e posição do autor João Flor de Maio.

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Nos anos oitenta, sob os protestos da população foi demolido o belíssimo Cine Teatro Metrópole para dar lugar a um ridículo edifício bancário do Bradesco. Construído no lugar de nosso antigo Teatro Municipal possuía belíssimo projeto arquitetônico de Raffaello Berti, um dos fundadores da nossa Escola de Arquitetura da UFMG – a primeira do país – e grande modernizador da arquitetura de Belo Horizonte. Há alguns anos atrás fomos surpreendidos pela triste notícia do fechamento do Itaú Cultural em Belo Horizonte localizado na Rua do Tupis bem próximo ao Metrópole, ainda sob os apelos da classe artística de Belo Horizonte, naquela época carente de instituições culturais do gênero. O Instituto Moreira Sales no mês passado encerrou suas atividades em Belo Horizonte, assim como já havia feito em Porto Alegre, a instituição era notável e única por suas exposições na área de fotografia. Notem que a instituição criada pelos fundadores do Unibanco concentra suas atividades culturais em São Paulo justamente no ano em que tal banco, fundindo-se com o Itaú cria a maior instituição financeira do hemisfério Sul. Para adoçar o natal, recebemos então a notícia de que o Cine Usina Unibanco – tradicional cinema de arte e promotor de um dos melhores festivais de cinema independente do país – está prestes a encerrar suas atividades diante do fim do contrato de patrocínio com -adivinhem! – o Unibanco!
Em pesquisa feita há alguns anos para identificar o perfil mais marcante da capital mineira foi detectado que tal caráter é inequivocamente o da cultura. Apesar da proximidade com o magnético eixo RJ/SP, que em um país periférico concentra a atividade e principalmente o financiamento da cultura, curiosamente BH segue produzindo e recebendo iniciativas do setor privado mineiro em produções de primeiríssima qualidade.
Também há poucos anos foi criado um espaço livre enorme e ideal para apresentações em espaço aberto, muito bem sucedido, se localiza em meio a diversos espaços culturais em área central da cidade, na praça da estação. Outrora o lugar era um estacionamento e isso não significou um colapso econômico na área ao contrário do que alguns acreditavam. Um raro exemplo em que o poder público identificou uma demanda da população (é verdade que com o apoio de Ângela Gutierrez) para produção do espaço de nossa cidade, que paulatinamente vem perdendo sua qualidade de vida em prol da indústria automobilística. A escassez de espaços de lazer passivo – locais de encontro – nos leva a uma contraditória relação com os poucos que temos em BH. Não raro é proibido deitar na grama, fazer piquenique, fazer barulho, etc, justamente nos locais onde tais atitudes não possuem caráter utilitário, de mercado, mas sim do lazer livre, gratuito e democrático, algo que mesmo em uma cidade empobrecida como Buenos Aires seria impensável ocorre aqui em um período de gastos faraônicos em obras “públicas”. Fica no ar a pergunta, estamos fazendo nossa cidade para as pessoas que vivem nela? Qual é a perversidade de se possuir parques e praças para se ver de dentro do carro?
Recapitulando, no caso dos bancos privados digo que é completamente injustificada a atitude diante do país ao se afastarem de uma atividade tão irrisória diante dos lucros bilionários sempre divulgados com alarde, que aliás descontam dos impostos mantendo apenas uma atividade regular nas cidade onde pretensamente têm visibilide. No caso de nossos agentes políticos fica um alerta e uma esperança, já moribunda, de que atendam aos apelos das pessoas que votaram neles para transformarem a nossa cidade segundo os desejos das pessoas que nela vivem, e não por razões eleitoreiras e tecnocráticas. No caso de todos nós peço o empenho que não tivemos em outros momentos para preservar aquilo que nos é tão caro e que, uma vez perdido dificilmente se recupera.
PS – A Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, uma das melhores e mais jovens do Brasil teria sua sede no alardeado Circuito Cultural da Praça da Liberdade, o projeto vencedor de um concurso seria uma das melhores realizações de arquitetura contemporânea no Brasil. Diante da impossibilidade de a obra ser terminada na administração Aécio Neves devido a trâmites burocráticos delicados e ao arrojo arquitetônico decidiu-se pela invenção de um museu para ocupar o mesmo espaço pois este ficará pronto em tempo da propaganda eleitoral. A orquestra se encontra sem sede oficial e sem perspectivas sólidas nesse sentido.
As antigas sedes do Itaú Cultural e do IMS se encontram vazias.

Sobre o fechamento do Usina Unibanco de Cinema:
http://www.otempo.com.br/otempo/colunas/?IdColunaEdicao=10255

Sobre a proibição de eventos na Praça da Estação:
Faça seu proprio flyer, sticks, banner, faixes, bote a boca no trombone… e vá de branco!
http://www.vadebranco.blogspot.com

João Flor de Maio

Formado em Licenciatura em Artes Plásticas pela Escola Guignard, estudante de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais.

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Quando nós não somos convocados a pensar – Eduardo de Jesus

Estréiamos com esse texto uma nova idéia para o blog do Hoy. Convidamos textos a habitar esse espaço, sejam eles criados para o blog ou escritos em outro períodico.
Esse texto do professor Eduardo de Jesus foi escrito para o jornal Letras, periodico cultural do Café com Letras. Número 33. Junho de 2009

Quando nós não somos convocados a pensar

Eduardo de Jesus

No  cenário  atual,  dominado  pelo  capitalismo  cognitivo,  as  produções  culturais, altamente  valorizadas,  são  apropriadas  e funcionam  como mola  propulsora  de  processos  de subjetivação, mas  que  não  provocam  deslocamentos.  Tudo  assume  uma forma  apaziguada  e morna,  na  qual mais vale  a “satisfação  do  cliente”  do  que  especificamente alguma forma, um pouco mais ousada, que reconfigure ou desloque as subjetividades. Tudo parece deslizar no mesmo lugar, embalado pela mesmice e pelo gosto médio do consumidor, do  formulário da  lei de  incentivo  (que,  inevitavelmente,  acaba por formatar idéias e propostas adequando-as a um suposto patrocinador e público) e da mesmice cultural que, de alguma forma, impera nos domínios da cultura brasileira. Há pouco risco, assim como pouco investimento em ousadia e experimentação.

Se  tomarmos  as  produtivas  tensões  entre global  e  local,  especialmente  se  entendermos  que  essa  relação,  na  verdade,  é  um processo e não uma  localização,  talvez seja possível  assumir  que  as  formas  culturais contemporâneas  se  estabelecem  num  liame  híbrido,  numa  mistura  de  referências que  dota  o  local  de  uma  densidade.  Para estabelecer  diálogos  mais  intensos  com essa tensão, tipicamente contemporânea, é importante que a produção cultural explore aquilo que pode, de alguma forma, provocar deslocamentos, atitudes críticas e reflexivas. Instigar o  sujeito  que  experimenta  a  produção  cultural a procurar outras  formas de singularidade,  para  além  daquelas  padronizadas  que  são  viabilizadas  e  dadas  a  ver pelos  jogos  do mercado,  especialmente  no domínio da mídia.

Em diversos projetos culturais que circulam pelo nosso  país  podemos  perceber  uma  ligação  extremamente  forte  com  essa  visão muito  apaziguante  que,  dificilmente,  explicita,  e  nos  coloca  a  pensar,  na  gama  de conflitos que experimentamos na vida cotidiana. Freqüentemente, o que ocupa o sistema midiático e a visibilidade é da ordem do “espetáculo”, tomando o termo de forma estrita como em Guy Debord.   Nesse contexto vale tudo, desde que seja grandiloqüente e consiga mobilizar um grande número de cidadãos comuns ou “formadores de opinião”. Chama a atenção nessa lógica, por exemplo, os  investimentos  em  publicidade massiva. Comumente vemos  isso.  Uma empresa  ou um  conglomerado  financeiro  alardearem um  “grande  espetáculo”  associando  isso  a uma  suposta  “responsabilidade  e  compromisso” com a cultura brasileira.

Esses anúncios ocupam os intervalos comerciais  das  grandes  emissoras  de  televisão, assim  como  rádios,  jornais  e  revistas,  de forma  intensa. Ou  seja,  um  fabuloso  (para combinar  com  o “espetáculo”)  investimento em mídia em todo o Brasil.  Infelizmente não  temos acesso aos números, mas quase certamente o investimento publicitário nesses comerciais – que, às vezes, contam com a atuação de grandes estrelas da  televisão, cinema  ou  teatro,  mostram  as  diversas produções patrocinadas em fashs rápidos – poderia  ser  também  revertido  em  projetos  de  menor  escala,  mais  de  fomento  e  até mesmo de menos visibilidade. Poderiam ser usadas outras estratégias midiáticas, menos agressivas e onerosas, para associar a  instituição à produção cultural.  Mas, nessa visão, o espetáculo  tem  suas vantagens: o  tapete vermelho, a presença em massa de “celebridades” – de ex-participante de reality show ao  suposto  novo  caso  amoroso  do  político corrupto – e com  isso a divulgação de uma marca e sua “responsabilidade com a cultura brasileira”.

Guardadas as devidas proporções, é  impossível não lembrar de Tim Maia. Nos anos 70, o  cantor  teve uma grande briga  (nas mesmas proporções da voz e do seu biótipo) com um gerente de marketing de uma gravadora, que, ao  revelar o valor do plano de  lançamento do novo disco que acabava de ser apresentado, foi surpreendido por Tim Maia, que, muito nervoso, esbravejava ser possível fazer vários discos com aquele valor. Ou seja, essa visão não é nova, no entanto se repete a exaustão.

Nesse ritmo vale aquilo que trouxer a maior mobilização e visibilidade, uma questão de números e  de  estatística.  Nesse  contexto, podem ganhar espaço desde comemorações e  efemérides  (uma  “cultura  da  memória” como  diria  Andreas  Huyssen)  –  que  pautam da escola de samba à exposição de arte contemporânea do grande nome do circuito internacional  –  até  o  frisson  em  torno  do franchise  cultural  das megacorporações  de entretenimento travestidas em uma suposta inovação, mas que, na verdade, estão absolutamente  adequadas  ao  merchandising selvagem  dos  grandes  grupos  financeiros. Sabemos que prodígios técnicos e virtuoses, por  si  só, não bastam. Precisa-se de muito mais  (ou  quem  sabe,  muito  menos)  para conseguir  mobilizar  os  afetos  do  público fazendo-o  reposicionar-se  criticamente diante  da  vida.  Se  a  busca  por  parâmetros institucionais  domesticados,  que  acabam por  provocar  uma  estandartização  na  produção  cultural,  coloca  tudo  em  uma  vala comum, isso talvez comprove o quão vazias se  tornaram as políticas  culturais, em  relação  ao  sofisticado  domínio  do  capitalismo cognitivo, agora entregues ao lugar comum, ao gosto médio, à celebração extremamente onerosa de grandes nomes da arte e cultura que  já  não  conseguem  entrar  em  sintonia com as questões contemporâneas.

Não se trata de buscar sempre o mais novo, papel aliás mais adequado para a venda de produtos de consumo direto, mas de conseguir dar uma densidade  em  torno das  formas que a produção cultural pode assumir. É possível buscar vínculos com a memória e com o passado, mas de forma mais criativa e aberta, sem as pressões típicas que estriam e condicionam o que deve ou não ser  lembrado,  como  se  fosse  uma  grande  agenda operando  de  forma  retroativa  e  pautando nossas memórias coletivas numa espécie de globalização da memória.

Nessa primeira década do século XXI a produção  cultural  traz  muitos  desafos  e  enfrentamentos,  especialmente  aqueles  que colocam os processos de subjetivação como ponto central de nossos olhares e atenções. Convivendo com um circuito midiático altamente competitivo, alargado e infltrado na vida  social  (especialmente pelo avanço das mídias digitais e da  comunicação móvel) a produção cultural poderia oferecer uma  resistência  crítica  nesses  embates  e  oferecer oportunidades  ao  sujeito  de  ampliar  seus horizontes  de  expectativa,  para  além  de visões  apaziguadas  e  aprisionadas  por  noções  equivocadas  de memória,  identidade e território.

Eduardo de Jesus é professor da Faculdade de Comunicação e Artes da PUC Minas.

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Tentando elucidar nosso amigo Bernardo (ou confundindo-o mais)

Não se trata de desnaturar, mas de inventar.

Sou a favor de nenhuma licitação, tudo que evoca um livro deve se passar no espírito do leitor: mas se voce substitui a fotografia, por que nao ir diretamente ao cinematográfo, cujo desenvolvimento substituirá imagens e texto e volume vantajosamente.

O que separa de modo mais manifesto a estética filosófica da reflexão do artista é que ele procede de um pensamento que acreditamos estranho às artes e que sentimos ter uma esencia diferente do pensamento de um poeta ou de um músico, na qual direi desde já, ela não se reconhece.

Mallarmé

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